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por Janeslei Albuquerque
Queremos, nesse 13 de maio de 2026, convidar educadoras a refletir sobre o contexto político e literário da abolição pelo olhar atento de um dos seus maiores críticos, Machado de Assis. O escritor que segue sendo um dos maiores do Brasil, tratava com ceticismo e ironia a realidade brasileira, sobretudo suas elites econômicas, a de quem demonstrava não esperar grandes coisas.
Passada uma primeira fase Romântica, quando Machado se afasta para tratar de sua saúde, retorna a cena literária e já publica “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que o personagem principal, o “defunto autor, é um membro da burguesia nacional com todas as suas características desde então. A partir daí, todos os narradores de suas obras será a burguesia brasileira do século XIX.: Brás Cubas, Dom Casmurro etc.
Toda a parte da sua obra que integra o Realismo brasileiro, deixa entrever que não esperava nada [de bom] dessa elite que já era majoritariamente antinacional, antipovo, egoísta, oportunista, medíocre, violenta, patriarcal e escravista. E, analisando e observando a alma humana, tampouco apostava que após a abolição o Brasil seria um país desenvolvido, industrializado, com importantes avanços civilizatórios.
Ele olhava pra sociedade brasileira e o que sobressaía da sua narrativa era ceticismo e ironia diante de uma elite que sempre escondia intenções egoístas até mesmo quando aparentava fazer boas e caridosas ações. Para colocarmos em perspectiva seus escritos onde o Brasil colonial, escravista está presente e fazermos uma comparação com as elites econômicas do Brasil de hoje, passados 138 anos, quanto do ceticismo de Machado de Assis tinha – e tem – razão de ser.
Para isso apresentamos uma crônica escrita em 19 de Maio de 1888, seis dias após a assinatura da Lei Áurea, cujas celebrações públicas ele acompanhou como observador. Seis dias refletindo sobre o que viu e ouviu produziram essa jóia machadiana.
Sugerimos que seja feita a leitura com suas alunas e alunos, que se promova a discussão, a reflexão cotejando com as elites econômicas de hoje e fazendo as necessárias críticas para a construção de outro patamar de consciência nacional que possibilite avanços civilizatórios na área dos direitos sociais e humanos, da superação do racismo e da mentalidade colonial, da construção da igualdade e da elevação da consciência de classe do povo brasileiro.
Boa leitura!
Crônica de 19 de maio de 1888,
publicada no Jornal Gazeta de Notícias
Bons dias.
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! Meu senhô! Fico. – …um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.